Revelações, experiências e propósitos que tomam formas após o diagnóstico de câncer

Texto:Élida Rocha     Designer:Mariana Lopes

Em um primeiro momento, quando algo inesperado nos chega, a sensação é de perda total. No olhar do espelho, você descobre que tem apenas dois caminhos: se lamentar ou pegar toda aquela força (que você não sabe que ainda tem) e seguir em frente.  Foi assim que Fernanda renasceu.

@essetaldecancer

Era segunda-feira, 24 de novembro de 2014. Tudo corria conforme o meu antigo normal. Apesar das férias, eu ainda pensava na agenda do trabalho, e apesar da consulta que teria para saber o resultado de uma biopsia mamaria, eu me mantinha irritada por já saber dos novos exames que teriam de ser feitos.

No final do dia, eu fui ao médico acompanhada por minha mãe, que pediu para ir comigo. No meu piloto automático, eu apenas disse: “Está bem, mãe. Vamos!”.

O consultório já era conhecido. Minhas irmãs, eu e minha própria mãe sempre fazíamos ali as consultas de rotina. O médico era da família e, por isso, eu me mantinha no automático da vida. Ele me falava de tumores, avanços, exames e eu nada percebia. Até que ele disse: “Fernanda, não temos uma boa notícia”.

O dia de quem descobre o diagnóstico de câncer, seja ele qual tipo for, é o dia em que a expressão “perder o chão” é realmente vivida. Fernanda Savino estava com 32 anos quando recebeu o resultado de câncer de mama. A sua lembrança daquele instante é o da não compreensão. O choro chegou, mas a sua mente tratou de apagar o restante daquele dia, a não ser o conforto dos abraços que recebeu e o colo afetuoso do pai, que – de italiano durão – se emocionou e mostrou que a sua fortaleza dependia da felicidade de sua filha.

Uma advogada dedicada, que descreveu o seu antigo eu como workaholic: aquela pessoa que trabalha excessivamente, negligenciando em muitos aspectos a sua própria saúde. “A minha carreira inicial foi a de Letras, sempre tive paixão pela escrita e tinha muita vontade também de ser jornalista. Eu lecionei muitos anos, mas um dia tive a vontade de mudar. Assisti a uma aula de Direito e me encantei. Logo no início do curso, eu consegui um estágio, e aos 29 anos, a minha carreira como advogada ganhou forma”, conta.

Obstinada, Fernanda traçou o seu objetivo, mas o dia a dia a fez tomar um caminho sem limites e sem lugar para o não. “Dessa forma, passei mais de dois anos sem pisar em um consultório médico para os exames de rotina”.

 

A vida pós o diagnóstico de câncer de mama

O ato de se notar

“Foi no banho que eu senti uma diferença no meu corpo. Eu pude sentir o nódulo no meu seio quando passei o sabonete. Por um instante, eu cheguei a me perguntar se poderia ser um câncer, mas, imediatamente, mudei o meu pensamento. Não sei se era negação ou o meu perfil pragmático. A atitude mais lógica era a de ir ao médico, e foi o que eu fiz.

 No ultrassom, questionaram a minha demora em fazer os exames. Não havia uma explicação, eu apenas tinha colocado outras prioridades na frente.  Dali mesmo eu já sai com a indicação para uma biopsia. Na consulta com o meu médico, ele se impressionou com o tamanho avançado do tumor, mas se preocupava em me submeter a um exame tão dolorido quanto a biopsia.  Eu apenas disse a ele: “doutor, eu estou pronta para a sua decisão”. E a biopsia salvou a minha vida!

Mas, você acha que eu fiz o que depois da biopsia?

Eu fui viajar, sem saber o resultado!

Eu tinha programado as minhas férias no trabalho e mudar não era a minha opção, porque atrapalharia todo o meu cronograma profissional.

A missão de buscar o resultado ficou para a minha família. Minha irmã foi a primeira a saber da notícia do meu câncer. Ela decidiu não me contar. Eu ligava perguntando, mas ela se esquivava. Eu só me dei por satisfeita quando a minha mãe, sem saber do resultado, apenas me disse que eu teria novos exames para fazer. Daí vem a minha irritação no início do dia 24 de novembro”.

 Traçar os novos caminhos

Em um primeiro momento, quando algo inesperado nos chega, a sensação é de perda total. No olhar do espelho, você descobre que tem apenas dois caminhos: se lamentar ou pegar toda aquela força (que você não sabe que ainda tem) e seguir em frente. Foi assim que Fernanda renasceu. Ela nos conta:

“Alguns pontos são centrais para essa nova jornada:

  • Família: a mão da minha mãe no dia do resultado. O abraço das minhas irmãs, que já me aguardavam na saída do consultório. O colo do meu pai. Toda a certeza do “estamos aqui para você”.
  • Trabalho: o olhar no olho, sem aquela expressão de que tudo acabou. O meu chefe perguntou: “o que você quer fazer?” E como eu ainda não tinha respostas, ele simplesmente me acalmou: “vá, faça e fique tranquila, porque estaremos aqui quando você retornar”.
  • Amigos: é muito importante saber fazer a pergunta certa. Não adianta perguntar se a pessoa está bem, porque a resposta é não. A pergunta correta é: “como você está hoje?” Esse cuidado com as palavras é fundamental para o acolhimento e o carinho.

Uma amiga escolheu me acolher com flores. Quando eu chegava em casa depois da quimioterapia, lá estavam elas para me abraçar. Lindas e vivas flores.  

  • Tomar cuidado com o positivismo tóxico, aquele que diz o tempo todo pra gente que tudo vai ficar bem, sabe? Mas não! Existem momentos que você vai querer ficar sozinha, e tudo bem!

Eu descobri com o câncer que eu sou humana. De repente, eu dei de cara com a possibilidade real de morte. Foi preciso aprender a acolher as minhas emoções e a terapia me ajudou. Eu parei de varrer as minhas sensações para debaixo do tapete e me permiti sentir o que estava acontecendo.

A nossa mente é muito poderosa. Eu tenho um exemplo muito marcante disso: numa manhã, eu presenciei um assalto que aconteceu com a minha irmã. Não pude fazer nada, e nós duas chegamos em casa muito abaladas. Eu fui para a quimioterapia e ninguém conseguia pegar a minha veia para a medicação. Depois de algumas tentativas, o enfermeiro disse que tentaria uma última vez. Eu não queria perder aquele momento. Eu fechei os meus olhos e falei com o meu corpo. Pedi para as minhas veias ajudarem, conversei com elas para que a gente conseguisse concluir a sessão do dia. E ao autorizar a nova tentativa, tudo correu bem.

Essa é a nossa força interior. O nosso autoconhecimento. O nosso poder”.

“A minha vida tomou um novo ar. Era uma nova pessoa. Uma nova história”

Nossas lutas e nossas glórias

Somos indivíduos e cada corpo é um corpo. Por isso, a reação ao tratamento é única. Por conta das características do câncer da Fernanda, o início do tratamento foi com a quimioterapia. “O tumor que era grande, se tornou pequeno. Você não faz ideia da sensação de conquista! A cada quimioterapia, o médico media o tamanho e a minha força se renovava com o resultado. Na cirurgia, eu retirei por prevenção o linfonodo sentinela. A minha vida tomou um novo ar. Era uma nova pessoa! Era uma nova história!”.

 Ao novo eu

“A Fernanda mudou completamente. É muito difícil romper hábitos, mas hoje, aos 38 anos, eu me sinto mais consciente da vida, porque antes eu achava que tinha controle. Quanta ironia!

Hoje, eu me permito viver um dia de cada vez. Eu aprendi a ser a minha prioridade.

A gente não renasce da noite para o dia, mas podemos dar um passo de cada vez para o novo. Eu aprendi a olhar para as pequenas coisas da vida. Aprendi a valorizar o simples. A sair para trabalhar, mas antes caminhar e tomar um café da manhã com os meus pais. Hoje, eu imponho limites e sei dizer não.  Hoje, eu olho para mim e acredito que eu posso muito mais”, continua Fernanda Savino.

Nota:

A história da Fernanda Savino faz parte do nosso canal Una Mulher Empreendedora – voltado para as mulheres que Pensam Grande.

Acompanhe os nossos conteúdos e faça parte dessa corrente do bem!

Instagram: @unamulherempreendedora