Matéria de Maurício Oliveira, publicada pelo Valor,  traz uma notícia surpreendente e maravilhosa. Abaixo alguns trechos, porque vale a pena ler e refletir.

Em 17 de janeiro de 1938, uma segunda-feira, tropas nazistas avançavam pela Europa, agravando as tensões que levariam à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). No Brasil, multiplicavam-se turbulências decorrentes do golpe que, dois meses antes, deu início ao Estado Novo, com Getúlio Vargas no poder. Enquanto os cangaceiros Lampião e Maria Bonita tentavam escapar da perseguição das forças policiais, a seleção brasileira de futebol se preparava para disputar a terceira Copa do Mundo (a deste ano, na Rússia, é a 21a) e Orlando Silva, o “cantor das multidões”, fazia sucesso com a primeira gravação de “Carinhoso”.

Alheio a tudo isso, Walter, um rapaz alto e magro de 15 anos, estava preocupado apenas em chegar no horário em seu primeiro dia de trabalho nas Indústrias Renaux, fábrica de tecidos fundada 13 anos antes na cidade catarinense de Brusque. Foi preciso acordar às 5h, engolir rapidamente uma xícara de café e iniciar a caminhada de 5 km até a empresa, onde a jornada começava às 6h. A vaga havia sido conquistada na sexta-feira anterior, quando ele foi pedir emprego, acompanhado da mãe, Alvina. Surpreendeu-se com a resposta: poderia começar já na segunda-feira. Certamente contribuiu para a acolhida o fato de o pai, Bertoldo, trabalhar como tecelão em outra empresa do grupo e ser considerado um profissional correto e dedicado.

“Assinei a ficha de admissão número 130”, afirma Walter Orthmann, aos 95 anos com excelente memória. De lá para cá, a empresa, que há alguns anos passou a se chamar RenauxView, contratou outras 10,3 mil pessoas. E as oito décadas que separam aquele rapazinho de um homem quase centenário o fizeram entrar no “Guinness Book”, o livro dos recordes, por causa da peculiaridade de, ao longo de todo esse tempo, ele ter trabalhado sem interrupções para o mesmo empregador, com carteira assinada desde o primeiro dia. “Só vou parar quando morrer. Como o trabalho é a melhor distração para a morte, isso ainda vai demorar um pouco”, diz ele, com um sorriso.

O processo de reconhecimento do recorde mundial foi, por si só, uma saga. Quando Orthmann completou 70 anos de casa, o responsável pelas áreas de marketing e comunicação da RenauxView, Roberto Sander, então recém-integrado à equipe, suspeitou que poderia se tratar de uma marca única no mundo. Mas não era. Justamente naquele ano a categoria “carreira mais longa na mesma companhia” do “Guinness Book” estava incluindo como recordista o americano Thomas Stoddard, que permanecera 80 anos, entre 1928 e 2008, na Speakman Company, fabricante de chuveiros, pias e torneiras sediada na cidade de Wilmington, onde começou como contínuo e se aposentou, aos 96 anos, como membro do conselho de administração.

Sander guardou a informação e só decidiu revelá-la a Orthmann no momento em que completou 77 anos de casa. “Quando contei, ele refletiu por alguns segundos e respondeu: ‘Deixa comigo que eu vou chegar lá!'”, lembra. No tão esperado dia 17 de janeiro de 2018, além da festa na empresa, Sander encaminhou o material solicitado pela equipe do “Guinness” para validar o recorde. No dia 4 de abril, depois de quase três meses de trâmites, incluindo uma série de pedidos de novos documentos, o certificado foi expedido e enviado diretamente da Inglaterra. Está enquadrado e pendurado na parede em frente à mesa que Orthmann ocupa na sede da empresa.

Passadas outras 4,2 mil segundas-feiras desde a primeira, ele continua indo trabalhar diariamente. Com o entusiasmo de um iniciante, começa às 8h. Chega dirigindo – renovou a carteira de habilitação há três meses. Vai almoçar em casa, que fica a dez minutos do trabalho, e encerra o expediente às 17h. Somente há três anos abandonou a rotina de viagens constantes que fazia como gerente de vendas. Agora mantém contatos por telefone com clientes antigos, que valorizam esse atendimento personalizado, além de emprestar a experiência acumulada a atividades de apoio, como avaliação das amostras de tecidos que saem das máquinas. Embora tenha familiaridade com recursos de tecnologia – carrega um tablet para todos os cantos -, controla as encomendas que recebe em um caderno que preenche a caneta, com letra caprichada.

Matéria completa clique aqui